Exposição mais recente do artista nipo-brasileiro é composta por 150 fotografias em preto e branco 

Para Haruo Ohara, o cultivo de café, de frutas e de flores, no norte do Paraná, sempre esteve aliado à fotografia. O lavrador japonês emigrou para o Brasil aos 17 anos e, paralelo à relação com a terra, fez registros documentais, abstratos e humanistas de sua família e do trabalho no campo, no município de Londrina.

A exposição Haruo Ohara – Fotografias reuniu um conjunto de 150 fotografias em preto e branco, produzidas pelo “lavrador de imagens” entre os anos 1940 e 1970.

Nuvem da Manhã, fotografia realizada emTerra Boa, PR (acervo IMS, 1952).

Todas as obras da exposição, e mais 20.000 negativos do fotógrafo, foram doadas pela família Ohara ao Instituo Moreira Salles, em 2008. Além de preservar o acervo, o curador da mostra, Sérgio Burgi, afirma que a intenção do IMS é disseminar as obras por meio de exposições.

“Esta mostra revisita uma série de imagens emblemáticas de Ohara que não esgota sua obra, mas nos faz ampliar a compreensão do contexto de um imigrante lavrador que usou a fotografia como expressão pessoal de linguagem”, afirma o curador.

A obra de Ohara alinha-se com a fotografia moderna, que critica a reprodução de modelos da pintura clássica. Em suas fotografias, Ohara explorou três campos: o afetivo, ao contemplar, essencialmente, as crianças de sua família (casou-se em 1934 e teve nove filhos); o documental, que retratou o dia a dia produtivo da lavoura; e posteriormente, o abstrato, ao experimentar recortes de texturas, superfícies e planos que dialogam com o universo das artes plásticas.

Maria, filha de Haruo e Maria Tomita, sobrinha (acervo IMS, 1955).

Burgi diz que Ohara perseguiu a construção de representações muito definidas, e utilizou a intuição a favor de suas composições do início ao final do processo fotográfico.

“Ohara produziu, ampliou, e finalizou todas as suas obras com um alto grau de elaboração”. Ao citar o processo de revelação de suas fotografias, Burgi complementa: “Assim como Edward Weston e Ansel Adams, Ohara ampliou todos os seus negativos diretamente no papel, e procurava, artesanalmente, adequar a luz à revelação”.

Em 1951, Ohara fundou, em pareceria com outros fotógrafos, o foto-cine clube de Londrina, e associou-se ao foto-cine clube de Bandeirantes, um do mais representativos da cidade de São Paulo. Após isso, participou de vários salões de fotografia, mas a sua primeira grande exposição individual só aconteceu em 1998, no Festival Internacional de Teatro de Londrina.

“Não fazíamos a ideia da dimensão da importância do trabalho do meu avô. Tinha noção que eram boas fotos, mas não que pudesse ganhar a visibilidade que ganhou”, confessa Saulo Ohara, que também é fotógrafo.

O neto de Ohara conta que Haruo pesquisava muito sobre fotografia para aprimorar sua linguagem estética. Para tanto, possuía uma biblioteca, tinha acesso à publicações japonesas de arte e sempre manteve contato com amigos artistas. Em paralelo, o avô nunca abandonou o estudo de novos enxertos e experimentos no campo agrícola. “A agricultura, assim como a fotografia, também era encarada como arte”.

Família Ohara posa na zona rural do norte do Paraná

Haruo Ohara – Fotografias já passou por São Paulo, Belo Horizonte , Londrina, e Curitiba. O museu de arte de Kochi, cidade natal Ohara, e mais dois museus japoneses, já demonstraram interesse em abrigar a exposição. Segundo Saulo, a família se sente orgulhosa em ver a repercussão do trabalho de Ohara, que foi, simultaneamente, homem do campo e homem da arte.

    Antes do meu imaginário desenhar em mim personagens de Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto ou Euclides da Cunha, foi o chapéu de couro do vaqueiro Manoel que ditou os primeiros traços. Riobaldo era Manoel, Severino era Manoel; em todos os sertões, vários Manoéis perambulavam ostentando fitas com medalhas na testa, lenços no pescoço e munição junto ao peito. Deus o Diabo na Terra do Sol, apoteose do cinema novo dirigida pelo baiano Glauber Rocha em 1964, projetou na eternidade a imagem do personagem Manoel, interpretado por Geral Del Rey, e de tantos outros integrantes do cenário do sertão nordestino situado no contexto miserável da seca.

   O argumento ganhou na roupagem de Paulo Gil Soares, que também ‘vestiu’ Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro de Glauber, a medida certa. Em Manoel, a calça dentro da bota acompanha o andar firme; o olhar inflamado sustenta o punhal, o fuzil e o anel na mão. A meia-lua do chapéu, que pra mim era de Lampião, dá o tom à composição visual do vaqueiro que matava por uma vida melhor. Reflexo da paisagem árida, o figurino de ‘Deus e o Diabo… ’simboliza a difícil luta de um povo castigado pelo sol. Entre camisas desabotoadas e adereços cristãos, o vento que balança o vestido simples da esposa Rosa, também movimenta a batina do beato Sebastião e a capa imponente que cobre o jagunço Antônio das Mortes.

O vaqueiro João, símbolo maior do sertão em "Deus e o Diabo ..."

     Em Deus e o Diabo Na Terra do Sol, o figurino é um elemento essencial na ambientação da narrativa, e dá vida e forma à estética do sertão. Rodado na cidade de Milagres, na Bahia, a produção contou com moradores da região que estamparam em suas roupas pessoais a naturalidade necessária para o filme que segundo Glauber é de imaginação, mas também é realidade.

A docilidade e a sutileza predominaram na peça Há Um Crocodilo Dentro de Mim. Porém, o mérito da peça não é dizer coisinhas bonitinhas de um jeitinho bonitinho, mas sim abordar dilemas profundos da vida humana, que beiram a morte, de forma leve e inteligente.

Amanda Lyra e Maria Tuca Fanchin, da escola dramática da Universidade de São Paulo (USP), são as duas Alices dirigidas por Silvana Garcia. Elas dão vida ao texto baseado em escritos do português Abel Neves, dos espanhóis Angélica Lidell e Rodrigo García, o qual é também inspirado por Boris Vian, Julio Cortázar, e claro, Lewis Carrol.

Tão colorido quanto frágil: eis a dualidade do cenário da peça

O mundo das maravilhas não é exatamente maravilhoso neste caso. Projeções audiovisuais evidenciam no começo da peca as linhas arquitetônicas de uma grande cidade, na qual as personagens vagueiam sem direção aparente. Já no palco, as atrizes parecem não se adequar nem na cadeira que as prendem, nem na realidade a qual lhes é inquietante.

Pela metáfora da queda e do corpo como manifesto, as Alices se rebelam graciosamente com suas saias coloridas e melodias suaves (Devendra Banhart na trilha) contra a ideia de eternidade perseguida pelo humano. “Quem quer viver pra sempre?”, elas encaram a plateia e questionam. A atenção é voltada ao infinito, que na condição humana, findo é, mortal, como a carne que nos constitui. O que nos resta é mesmo regar as flores do quintal. Na projeção final elas são a verdadeira representação da beleza efêmera que é a própria vida.

Viajo porque preciso, volto porque te amo segue por caminhos descontínuos e não ambiciona alcançar lugares essencialmente concretos. O argumento baseado na imersão sentimental no íntimo de um cidadão comum, o geógrafo José Loureiro, é desenvolvido sem causalidade aparente, conflitos óbvios ou mesmo narrador visível. O próprio José nos convida, em primeira pessoa, a embarcar em uma jornada pelo sertão nordestino, sob o pretexto de realizar pesquisas sobre um novo canal feito a partir do desvio de águas de um rio. Através da convergência de fotografias, diversos sons e linguagens cinematográficas, a obra conjunta de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz é um verdadeiro espaço de experimentação sensorial e audiovisual.

A paisagem árida confunde-se com o estado sentimental do narrador, que foi abandonado por sua amada, e que se funde com o abandono da seca instaurada pelo amor ausente. Durante o percurso, José se revela bastante vulnerável ao conjunto de vivências sofridas durante o trajeto. A interferência provocada por elas é decisiva na experiência de José que segue colecionando sensações como quem deseja preencher um álbum de páginas vazias. O road movie alterna cenas etéreas do horizonte deserto com visuais urbanos; o depoimento confessional de uma moradora, que sonha com uma vida-lazer, dá vez ao pulo, em slow-motion, do alto de uma pedra, no qual rapazes ensaiam mergulhos no rio. Esta alternância de imagens, algumas embaladas pelo som de ‘Morango do Nordeste’, dá ao filme um caráter intimista e artesanal, que amarra em sua teia audiovisual o reflexo do que é visto, e consequentemente, do que é sentido pelo narrador.

Mãos entrelaçadas, luzes amareladas e destinos turvos

‘Viajo porque preciso …’ nos transporta para um lugar que nem José Loureiro sabe onde fica, e o que interessa é, de fato, a imersão nas suas emoções que não se configuram um lugar materializado. Este é exatamente o ponto forte do filme: o descompromisso em, ao se arriscar por estradas tortas, não ter a obrigação de chegar lá.

O título Brasil Santo já sugere em duas palavras o tema principal do filme: a fé e sua multiplicidade de representações através dos santos no nosso país. Em evidência rostos simples e humildes presentes nos estados do Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo dando depoimentos não menos despretensiosos que a ambição maior do filme: retratar a força e a presença exercida pela crença religiosa do povo brasileiro.

Produção percorre o país em diálogo com a fé do brasileiro

A direção e produção é assinada pelo paranaense Gil Baroni e sua parceira Monica Rischbieter, que auxiliados por uma equipe de nove pessoas – a nomear: Guilherme Paciornik, Fernando Severo e Nelson Settanni – ultrapassaram fronteiras dos cinco estados brasileiros citados a fim de identificar a importância da fé, elemento comum que confere unidade às falas dos setenta minutos que compõe o documentário, realizado com recursos da lei Rouanet e patrocínio da Petrobras.

Confissões inflamadas pelo apego à religião, o significado desta e sua percepção com relação à vida, histórias de milagres, reafirmações constantes do papel ocupado pela fé e pela oração na vida de cada um, se praticam ou não superstições, como viveria uma pessoa que não tem fé, o santo preferido, costuram falas sequenciais de pessoas das mais variadas origens, mas que possuem um núcleo de discurso comum. A sobreposição de falas semelhantes, exceto pelo detalhe da experiência pessoal que cada um contribui seu modo e maneira, confere ao filme uma sensação de repetição de narrativa. Não pelo discurso em si, mas por sua insistência.

 

A fé impressa na expressão facial dos personagens do filme

As estrelas do filme motivadas pelo desejo de expor suas crenças são dispostas em primeiro plano ora em frente a panos coloridos com desenhos de flores e outros detalhes, ora em suas casas, praças, ruas abertas ou lugares que situam o personagem no exercício de sua fé: igrejas, ou a cidade-expressão do catolicismo no Brasil: Aparecida, no estado de São Paulo. Aliás, apesar da não preocupação – assumida pelos produtores – em investigar a religião dos entrevistados o apelo da maioria dos discursos é essencialmente católico. A menção ao candomblé e seus orixás com seus equivalentes no catolicismo não dá conta de aproximar o recorte, bem específico e proposital do roteiro do filme, do que se entende por sincretismo religioso.

A trilha composta por instrumentos bem brasileiros como o pandeiro é ponto forte do filme, e quem responde por ela é o músico Jean Gabriell que contou com a ajuda da Orquestra Sinfônica do Paraná. A sonoridade melódica da flauta que acompanha grande parte do filme empresta uma musicalidade interessante e bem pertinente à verdade aparente das histórias da nossa gente. O grafismo também chama atenção: além a cada depoimento é exposto um bonequinho animado que ilustra o santo da pessoa que fala, ou mesmo a essência do seu discurso resumida em desenho. Nossa Senhora Aparecida é a mais popular dentre os santos citados, seguida de outros como Santo Antonio, São Expedito, São Francisco, e por aí vai… Já a fotografia ganha uma dimensão mais atraente quando valoriza os aspectos além-fala de cada cidadão, como as externas realizadas nas regiões mais pobres em que a produção do filme passou. Todavia, a matéria-prima do filme é o conteúdo das falas do povo brasileiro, e o pano de fundo tão florido como colorido foi uma boa solução para prender a atenção do espectador ao que é dito.

A simplicidade com que é dirigido e a própria exibição de alguns trechos da produção dormindo, descontraindo, ou retratando a fé nas estradas – nas placas que acompanham os ônibus grafadas de Deus é amor – faz de nós, cúmplices do projeto. Não é à toa que foi premiado como melhor filme no Júri Popular do Festival Paranaense de Cinema Brasileiro latino. Carismático e generoso o filme dialoga diretamente com nossas raízes, e é abençoado com uma simplicidade difícil de não ouvir.

Melancolia e amor utópico marcam Insolação, primeiro filme de Felipe Hirsch, agora em DVD.

As linhas geométricas e racionalizadas de Brasília servem de pano de fundo para a construção da narrativa cinematográfica de Insoloção. Baseado livremente em contos russos, o filme faz referências à literatura, filosofia e ao próprio cinema. No enredo, corações avulsos perseguem um amor utopia debaixo do sol febril da capital que um dia foi pensada como modelo arquitetônico. Um pano de fundo inóspito envolto por uma atmosfera de frustração no qual personagens perambulam sem rumo definido na busca inatingível do amor ideal.

Corpos errantes buscam, às cegas, o amor utópico

O curitibano de crescimento Felipe Hirsch trouxe toda sua bagagem do teatro e certa ausência de vícios ao dirigir seu primeiro longa em co-direção com a parceira de palco e veterana do cinema Daniela Thomas. No elenco, atores famosos entre o grande público como Leandra Leal e Leonardo Medeiros, e outras já mais conhecidas pelo público local como a curitibana Simone Spoladore e o também conterrâneo Rodrigo Ferrarini.

Simone Spoladore e Antônio Medeiros em cena de Insolação

O resultado é um roteiro predominantemente silencioso e delicado com direito a falas que beiram a despretensão e o nonsense e uma fotografia que ora incomoda, ora encanta. Incomoda pela estaticidade e rigidez, que pode traçar um paralelo com as formas da cidade; pelos eventuais tons azulados que se distanciam da temática do filme, mas que também podem significar um alívio meio à ebulição sentimental vivida pelos personagens. E encanta pelo intimismo e sutileza com a qual os movimentos dos atores são explorados.  Isso, graças, em grande parte, à incrível interpretação de Simone.

Este potencial introspectivo torna a interpretação de grande parte do elenco bastante carregada, pesada, como numa celebração hedonista do que está sendo dito, dando brechas pro espectador se dispersar e até se enfadar. Como exemplo: o senhor ator Paulo José – ironias a parte – narra depoimentos excessivamente longos encarando o espectador e quando há diálogos, a maior parte é desconexa.

O elo que une amor e insatisfação no filme é essencialmente a estética. Outros elementos até estão presentes, mas se perdem ou se encontram diluídos na ambição forçosamente abstrata do filme.

azul celeteste, ver-te mar,
um céu imenso, verde olhar.
intisgante, penetrante,
domesticadamente selvagem.
não convida, não pede licença,
adentra, se instala
e preenche a natureza morta com vida.
sentimento suicida,
a espera de te … esperar.