em Sin Sangre, teatro-cinema se consolida

   
   Três assassinos, um objetivo: matar o médico, pai de família, que por algumas vezes os atrapalhou em seus planos durante a guerra. Nas entrelinhas deste enredo, que pode parecer simples, uma história de superação, de busca de serenidade em tempos nebulosos, resquícios de amor, que se revelam em meio à sede de vingança.

Na primeira cena, uma sacada projetada na tela ao fundo, na qual uma loira, óculos escuros, carne e osso, voz carregada, aparece em meio à noite fria. Lamenta-se por se ressentir tanto tempo em função de uma mesma lembrança, e dá espaço, desta vez na primeira tela, para o abre-título que jorra sangue digital no palco e forma as letras que compõe Sin Sangre.

     Intercalando lances audiovisuais com ações protagonizadas pelos atores, a peça alterna por vezes, planos duplos, para evidenciar concomitância de ações, plano detalhe ao valorizar uma ação específica, interação entre as linguagens (quando o ator empurra a tela de trás e interfere na projeção), ou por simples interação entre o que é projetado e encenado. Flash-back, alteração de ângulos (sim, os cenários foram produzidos e pré-gravados em vários ângulos), jogo de luzes estratégico, slow motion, e até uma esteira circular, fazem do que poderia ser uma simples peça teatral,  um espetáculo de artifícios.

 A pedra que um dos bandidos arremessa ao léu num dado momento, ecoa em cheio no interior de cada espectador, alvo dos truques da peça. Sob uma misteriosa atmosfera, é como se, sutilmente, pegassem na sua mão, apertassem, e na levada de uma ambientação sonora bem fiel ao que se passa, nos tornássemos personagens indiretos da trama.

Depois uma longa jornada por vários cenários – virtuais – dentro de um carro – semi-real – que viajava sentido plateia, os assassinos atingiram sua meta. O pai que escondeu a filha sobrevivente debaixo de uma tábua dentro de casa, a deixou feito um caracol, encolhida, enquanto resolvia as pendências com os criminosos. A menina perdeu o pai e o irmão de sete anos, que levaram tiros à queima-roupa dentro da própria casa.

Cinqüenta anos depois, a mesma mulher da sacada reaparece no presente da narrativa que logo se encontra com seu passado: um dos assassinos ainda está vivo. O bandido sobrevivente a tinha flagrado dentro do sótão em que foi escondida pelo pai, mas alguma força maior o forçou a não fazer nada à garotinha, hoje, uma mulher que busca se esclarecer. A personagem de voz mecânica e aparência impessoal plastifica a dramaticidade cênica, mas não compromete o conjunto da obra.

 Em um café, depois de um encontro casual na rua, trocam impressões e confidências de tudo que se passou – e ainda passa – em suas vidas. O recuso flash-back se torna evidente nesta altura da peça, e permite até aos personagens a penetrarem neste campo de ideias e experiências passadas. Sentimentos internalizados que borbulharam durante anos, e que faz do fecho da história uma singela evidência ao tênue limite que existe entre vida e morte, presente e passado e por fim, amor e ódio. Dicotomias nunca tão íntimas, costuradas na pele e projetada nos corpos dos personagens de ‘Sin Sangre’.

A peça lhe convida a conhecer tantos lugares diferentes, que fica difícil, depois das cortinhas novamente fechadas, situar-se de volta ao plano do real. Teatro Cinema. Em Sin Sangre este híbrido de linguagens se consolida. Nem estritamente só teatro, ou cinema: a narrativa é inteiramente – do comecículo ao fim – construída mesclando elementos dos dois recursos. Ao passo que o cinema (e suas referências da década de 50) empresta um pouco de seu glamour ao teatro, este perde no que se refere ao potencial intimista, sua proximidade com o público. A troca direta público-platéia, traço tão característico das artes cênicas, se vê comprometida por um jogo de marcações e projeções pré-produzidas, friamente calculadas. “Queremos fundir as linguagens do cinema e do teatro até o ponto de provocar confusão no espectador. Até que ele não consiga mais distinguir o que é corpóreo e o que é virtual”, diz o diretor chileno Juan Carlos Zagal.
   
Missão devidamente cumprida!

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